Falando de

A vida é um assédio

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Quando você é mulher, desde pequena se acostuma a esperar que os homens te machuquem e enganem. Isso não é preconceito contra eles, é apenas a realidade.
Nos ensinam a nos esconder, fechar as pernas e abaixar a cabeça, para que não atraiamos a atenção dos homens.
Pelo menos comigo foi assim e eu não entendia o porque, sempre estava por perto lá pelo meus 6 anos, adorava observar meu pai jogando dominó no quintal com os amigos e como era filha única e gostava muito de conversar, puxava conversa com qualquer um. Eu nem via a diferenciação entre homens e mulheres e o perigo, mas meus pais viam e por isso, nada me aconteceu ali, mesmo com uns 30 amigos do meus pai, sempre em casa. Deve ser por isso que eu nunca tive medo, na verdade, eu não sei porque. Mas esse medo que as mulheres assumem ter dos homens, eu não sinto com frequência, eu sinto raiva, sinto vontade de revidar qualquer palavra e ação que me machuque. Mesmo assim, algumas vezes, me calo, não conto coisas que aconteceram a todos e uso a desculpa de que não quero me lembrar. Mas também não esqueço.
Algumas vezes eu mesma protejo meu agressor e não entendo o porquê. Como quando não contei que um “parente” por associação, tentou me agarrar várias vezes e deitar na cama comigo quando eu tinha 14 anos (consegui me soltar e sair do lugar, desde então procuro me manter afastada, porque ele ainda está na família).
Como dias atrás, que não contei que um homem enfiou o dedo na minha bunda na lotação, porque ele tinha algum tipo de deficiência física que não reconheci (talvez um derrame, não sei).
Como as vezes em que caras me encurralaram no acento da janela do ônibus e me olham sem a menor discrição, de cima a baixo, como se estivessem arrancando minhas roupa e toda dignidade a qual tento segurar nas mãos fechadas de raiva, isso sempre acontece, sempre.
As vezes essas pessoas se desculpam. Mas eu simplesmente não consigo reconhecem essa palavra como apropriada para a situação. Desculpar pelo que? Fingir que você não teve a intenção de violar o meu corpo para suprir a sua necessidade irracional?
Porque me desculpe você, querido, se você não é capaz de “conter seus instintos sexuais irrefreáveis” deveria estar numa jaula, para o bem de mulheres, homens e objetos.

A única vez em que resolvi falar algo, foi quando tirei uma foto de um cara que estava me fotografando no trem e postei no facebook. Apesar de ter o apoio de algumas mulheres, os homens em minha vida, trataram o assunto com desdém e desconfiança.
Agora me diz, em quem eu posso confiar?
Quando minha família e amigos, não acredita ou trata com normalidade casos de abuso? Poderia ser pior. Sim, e é, para muitas mulheres.
É mais fácil ensinar as mulheres que elas devem ter medo, que precisam aprender a se comportar perante os homens. Porque não ensinar os meninos, desde pequenos, que os homens não são criaturas superiores, de sexualidade livre que tem que ter seus desejos prontamente atendidos pode desestabilizar a sociedade moldada a vontade deles. Os machos alfa, ah, onde estaríamos sem eles.

Eu não quero mais me esconder, mas também não queria precisar sair de casa pronta pra guerra. Assim como queria não precisar ficar calada e deixar meus agressores anônimos, para não ser taxada de “A garota maligna que estragou a vida de todos, por uma coisa que pode ter entendido errado”.
Eu não entendi errado e aquilo que senti nessas ocasiões – que me recordo tão bem, pois elas continuam a se repetir, nunca vão permitir que eu perdoe totalmente.
Foi por essas e outras situações que tatuei “Never Forget” no meu pulso. Nunca vou esquecer e é até melhor assim.
Quem perdoa e aquiesce, tem paz por alguns momentos, mas dá espaço para que uma vida de dor na alma.

Sobre o autor

Carla, 29 anos, publicitária, fotografa, social mídia, artesã. Louca da natureza, velharias e bichos. Mais na aba aba sobre e por todo o blog.

(8) Comentários

  1. Quanto mais problematizo o machismo mais desesperada fico. Precisamos nos unir pra reagir e precisamos já. Isso é uma bosta, saber que esses nojentos não só desrespeitam mulheres como também crianças. e INFELIZMENTE (preciso dizer que religiões contribuíram muito com isso, históricamente) os homens recebem privilégios desde de que o mundo é mundo e isso lhes dá algum poder. Mas tá passando da hora de isso acabar. E vai! Força!

    1. @Isabella M, é ridículo, fora que a vítima sempre é culpabilizada, ela é forçada a aceitar e ficar quieta enquanto as coisas acontecer. As mulheres mesmo são criadas para culpar umas as outras pelos problemas. E quanto mais problematizo, mais fico triste.

  2. Que textoo, que palavras!! Ontem na estação de trem, indo para o curso eu passei por uma situação beeem desagradável, na qual um cara me falou palavras de muito baixo calão e eu fiquei indignada e com aquele sentimento de culpa, mesmo eu sabendo que a roupa que eu estava não era inadequada, e na maioria das vezes é assim que nos sentimos. Espero que um dia isso mude e que esses “HOMENS” caiam na real e vejam a besteira que eles cometem.

    1. @Carla Dominique, esse desrespeito mascarado de elogio fere diariamente. Essa baboseira de que tem gente que gosta, nunca colou e eu adooro quando alguém faz com que eles coloquem as mães ou as filhas deles no nosso lugar, para que eles vejam como é ofensivo.

  3. Carla, vou abrir meu coração agora…

    Primeiro: juro que me emocionei com teu texto, de verdade.
    Quando minha mãe era criança, um tio dela a levou pra uma parte distante da casa e mostrou o “pinto” na maior normalidade. Ela só saiu correndo. Anos depois ela contou pra minha avó e a resposta que ela teve foi “ainda bem que tu nunca falaste isso pro teu pai, ele ia matar teu tio”.
    Eu tenho ódio desse tio da mamãe. Porém, me senti vingada quando ele teve um derrame. (eu sei que isso é mt cruel, mas eu senti)
    Eu sinto muita raiva quando um homem me fala coisas na rua, sinto raiva quando dizem “não liga”, sinto raiva de MULHERES que não percebem o que acontece, sinto raiva a todo momento porque, infelizmente, o machismo e vários tipos de preconceito estão à minha volta, Carla.
    Só que eu vou uma pessoa explosiva e ao mesmo tempo “sentimental”, então tudo que acontece comigo ou à minha volta, meche comigo. Eu fico remoendo aquilo dentro de mim até contar pra alguém. Se eu não botar pra fora, uma hora eu explodo. :$

    Esse teu texto veio em ótima hora pra mim, porque semana passada estava num bar com meu namorado (que graças as boas energias do universo é feminista), um amigo e um conhecido que estudou muitos anos comigo no colégio.
    Esse me amigo é extremamente machista, mas ele não costuma falar merda quando tô por perto. Só que o que eu não esperava era que esse meu conhecido também fosse, ou seja, eles juntos ficaram mais fortes.
    Passaram a noite toda falando de um casal de meninas que estavam no mesmo bar, que elas eram linda, um desperdício, que se elas se beijassem eles se levantariam e aplaudiriam ¬¬
    Depois de ouvir muita merda a noite toda, explodi e comecei a falar muita coisa, mas muita coisa mesmo.
    Resumindo: fiquei com mais raiva. Meu amigo jurou que não era machista mesmo eu falando de várias situações e frases deles. E esse conhecido nosso disse que a culpa de ele ser machista ERA DA MÃE DELE. Fiquei horrorizada e ainda defecou mais pela boca, disse que o homem não participa das coisas da casa nem da criação dos filhos pq tem que prover, trabalhar fora e levar o dinheiro pra casa. ¬¬

    Carla, eu tô com tanta raiva desses dois que tu não tens noção.
    INFELIZMENTE, eles devem ter rido da minha cara depois que fui embora porque eles disseram o tempo todo que eu estava exagerando, que eu estava sendo boba. BOBA. PQP. AFFFF….

    Beijo. Fica bem. Precisamos nos dar forças porque tá muito difícil.

    1. @Camila Santa Rosa, eu sei muito como é isso mew, eu guardo guardo e quando eu não aguento mais, solto os cachorros e depois começo a chorar de raiva.
      Em relação a tua mãe, isso acontece tanto dentro de famílias, que eu fico mega preocupada com tudo, porque esses “segredos” acabam sendo guardados por anos e anos e ter bem mais de uma vítima relacionada, pois quando contados ninguém leva a sério.
      Mas fiquei feliz que tu tenha falado um monte, mesmo que os caras não levem sério agora, eu espero que no futuro eles levem, acho que em algum ponto, todos serão obrigados a levar, porque as mulheres estão aprendendo, pouco a pouco, que elas tem lugar e voz nesse mundo.
      Força, vamos juntas!

  4. Eu nunca fui uma feminista roxa, nunca sai por ai falando dos inúmeros problemas que nós mulheres temos de enfrentar, nunca abri a boca para falar um desdém sobre os homens, mas concordo em grau e quantidade em tudo que falou. É estranho pensar que somos criadas para fazer com que nos respeitem, enquanto muitos homens são criados para que não nos respeitem. É contraditório e de nada vale se um estará sempre contra o outro. Precisamos sim nos unir e mostrar para o mundo que as mulheres podem e devem fazer o que bem entendem, e que possuem todo direito de andarem com roupas mais curtas, conversar com o sexo oposto sem parecer um jogo de sedução.

    1. @Kelly Mathies, nós somos criadas para “nos dar ao respeito” e sabermos cuidar de casa, para crescermos, nos casarmos e termos filhos. E porque não os meninos?

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